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Antigo 26-03-2010, 2:22
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Padrão O 911 do BUTZI


Amanhã faz 12 anos que morreu Ferry Porsche -27/03/1998- e aquela Primavera de 1998 foi um marco na história da sua marca. Uma espécie de “ponto de viragem”. Também por isso, essa primavera foi um dos seus períodos mais atribulados desde os remotos tempos da Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez o Museu da Porsche esvaziou-se da maior parte dos seus automóveis para os mandar em massa para fora da Alemanha, ao mesmo tempo que a Porsche veio a público revelar profundas mudanças na sua cultura e filosofia de marketing – ainda que subrepticiamente.

É o início da Porsche pós-Ferry Porsche. A Porsche da era moderna, que passa a viver definitivamente sem os seus símbolos vivos (já antes perdera o Professor, seu pai).
O Museu antigo da marca, por ser um “factory Museum” (dentro da própria fábrica) expunha apenas 30 automóveis e foi precisamente esse o número de exemplares que a Porsche enviou com destino a Londres, em Inglaterra. Impressionante, no mínimo, como é que um Museu envia para outro país, quase todo o seu espólio. Do Lohner de 1900 ao 917 de Le Mans, passando por uma série de 356 de eleição, pelo 550 e pelos protótipos, todos foram de férias.

E as razões, na altura, prendiam-se com uma dupla celebração:

1) Homenagem a Ferdinand Porsche e ao seu contributo para o design do séc. XX.


2) Aniversário dos 50 anos da Porsche.


O INICIO DO FIM DA HISTÓRIA

Mas então a Porsche celebra 50 anos em 1998??
Este último aspecto é muito importante, porque é precisamente nesta altura que a marca começa a assumir publicamente a alteração da sua linha cronológica, um fenómeno que já vinha sendo preparado. Como é sabido, os 50 anos da Porsche já tinham sido previamente celebrados em 1981. Durante muito tempo entendeu-se que a história da marca deveria abranger a firma independente de Ferdinand Porsche, criada em 1931, em Estugarda. O marketing moderno, porém, achou por bem iniciar uma nova calendarização e de um dia para o outro a Porsche fez-se nascer apenas em 1948 em Gmund, na Aústria.

Para tanto, amputou-se o termo “Stuttgart” da imagem institucional criada para estas celebrações mas, ironicamente, elas iniciaram-se precisamente nessa localidade, num evento que apelidaram “50 Jahre Porsche Jubiläums Feier Stuttgart” – um paradoxo fruto de distração.
Ora, vão ser estes eventos a assumir e a publicitar a nova contagem da cronologia da Porsche enquanto empresa.
Se em 1998 interessou criar esta ambiguidade, a verdade é que a consequência é mais sensível e complexa, pois na prática transfere-se a marca nascida na Alemanha para a Áustria, fazendo-se prevalecer o “nome do automóvel” ao “nome da família”).

A exposição de Londres, a meu ver, não foi por isso inocente. Por um lado era levada a cabo no território do seu inimigo de Guerra; por outro, ao evocar as celebrações dos 50 anos da marca naquele país, a Porsche despedia-se definitivamente do seu passado, ou melhor dizendo, de todo o período em que esteve umbilicalmente ligada ao Terceiro Reich. E este adeus tornou-se bem mais fácil, exactamente por já não contar com a presença física dos seus protagonistas – primeiro Ferdinand, e depois Ferry Porsche.




A EXPOSIÇÃO DE LONDRES – DE HITLER A BUTZI

A exposição instalou-se no Museu do Design em Londres e intitulava-se “Ferdinand Porsche: Design Dynasty 1900-1998”. Mas, como se referiu, quis o destino que tamanho e importante evento da marca coincidisse com a morte do seu, então, líder espiritual. Foi um drama e uma tristeza imensa que Ferry Porsche tivesse morrido precisamente naquela altura tão importante, e que impediu toda a família, trabalhadores e simpatizantes da Porsche de regozijarem com os festejos. O evento londrino acabou assim também, infelizmente, por se transformar num tributo ao Ferry Porsche.



O destino foi mau para a Porsche, mas foi bom para mim, já que me colocou em Londres naquela altura.
O anúncio foi feito pelo então curador do Museu do Design de Londres, Gerard Ford, que veio dizer em entrevista a um Jornal, esta frase bombástica: “Só pelo carocha já lhe era merecida uma exposição. Ferdinand Porsche foi o Freud e o Einstein da sua área". O teaser foi lançado mas a imprensa britânica teve uma reacção curiosa: desvirtuou o pai e concentrou-se no filho, transformando-se os anúncios da exposição em obituários de Ferry Porsche. Na imprensa, a matéria foi tratada de forma descomplexada, e no obituário fez-se até constar que Herr Porsche pai, tinha sido um membro do partido nazi. O que era (infelizmente) verdade.


No que toca à exposição propriamente dita, a minha primeira impressão, não foi boa. A culpa no entanto não foi da Porsche mas do Edifício do Museu em si, que era bastante exíguo. Muito pouco espectacular e demasiado urbano e intimista para um “show” daquela dimensão e natureza.
Naquela altura nunca imaginei nem me apercebi da dimensão da sua importância, nem o marco que ela própria acabou por significar na história da marca.
Durante a visita não encontrei absolutamente ninguém a ver a exposição. Talvez por causa do preço da entrada, já que o bilhete era excepcionalmente caro. Daí que ver todos aqueles automóveis numa sala vazia, era simultaneamente estranho e triste.


A exposição estava preparada para ser impactante. E o choque não foi pequeno, já que o automóvel que era dado a ver em primeiro destaque, era nada mais, nada menos, do que o protótipo VW cabrio que foi oferecido ao Hitler no dia do seu 50º aniversário, em 1939. Um objecto que nunca imaginei ver, muito menos numa exposição da marca de luxo e desportiva Porsche.
E depois, como quem não quer a coisa, estava lá também a seguir o Cisitália de 1947, o carro de corridas que o Ferry construiu para pagar a fiança de libertação do seu pai quando este foi preso pelos franceses, no final da guerra.
Mas não só, a exposição estava também recheada de artefactos que a Porsche nunca mostra em público: desenhos, documentos e objectos relacionados com a sua história contemporânea à 2.ª Guerra.
Só faltava mesmo um Panzer, mas suponho que só lá não esteve porque não cabia dentro do edifício.
Olhando agora “à distância”, percebe-se que este tipo de mostra é hoje em dia impensável e até inconcebível. Numa óptica empresarial, entenda-se.



Noutro registo, em grande destaque na exposição, estava também o Lohner de 1900, apelidado de “BUGGY LUNAR” de Ferdinand Porsche, com cartazes e expositores a explicar em detalhe a tecnologia que a Boing e a NASA recuperou e utilizou sete décadas depois no seu veículo que explorou a Lua – o Rover Lunar.
Também nunca tinha visto tal destaque ou enfoque neste prisma, e achei muito interessante.



E para o fim, estava reservada a mostra de um automóvel muito especial. Um automóvel que não pertencia ao Museu da Porsche, e quase que lá estava exposto em provocação e afronta.
E é este automóvel que importa aqui a este tópico, porque ele é conhecido como o “911 do Butzi” – que por sua vez, foi publicitado pela Porsche como sendo o “pai e criador do 911”. Era um exemplar que esteve à venda durante muitos anos, nas mãos de um particular. E a Porsche pouco por ele se importou.
Era um 911 com a matrícula “S - JJ 1061” e por cima dele, na parede, a inscrição de um nome: BUTZI PORSCHE.



Ferdinand Alexander Porsche (Butzi) é um personagem controverso e na história da marca esteve sempre envolvido em polémica. Em vez de pai do 911, se calhar deveria ter sido mais adequado chamá-lo de “padrinho”. Há quem diga que ele nunca foi um estagiário desenhador mas sim (e apenas) um modelista…
Sem se perceber bem porquê, Butzi é afastado de Zuffenhauzen e vai ficar confinado e isolado em Zell am See (na Áustria) desde 1974.
De resto, sempre me questionei, porque é que se o Marketing da Porsche o considera como o criador do 911 (ele ainda por cima ostenta o mesmo nome mítico do seu pai e avô – Ferdinand Porsche) deixou de a ele recorrer e fazer qualquer menção ou referência.

O 911 da exposição Londrina, embora sendo conhecido como o “911 de Butzi - Das Original” não é o único 911 à qual a sua imagem esteve associada. Existem outros dois, na mesma cor branca, ambos protótipos do 901, que também estão associados à imagem de Butzi Porsche.


S – PS 430

É o 901 “protótipo 1” que ficou conhecido na fábrica como o “Sturmvogel” (o albatroz). Chassis #13321, construído pela Reutter em Setembro de 1962. Carro que já não existe porque foi destruído em 1965. Ficou célebre por aparecer na fotografia de fábrica sem os vidros e em que aparece a equipa de criadores do 901/911, com destaque para o Butzi.



S – CU 902

É ainda o 901 “protótipo 1”. Com esta matrícula, ficou célebre por aparecer em vários ensaios fotográficos, nomeadamente o que fez com Thora Hornung, modelo e trabalhadora da Porsche, KG, em 1963. Posteriormente vai também ostentar a matrícula “TYP 902”.



S – 04324

É o 901 “protótipo 2”, que ficou conhecido na fábrica como o “Fledermaus” (o morcego) por ter sido camuflado com umas asas alusivas a esse animal, para se disfarçar dos curiosos da imprensa. Chassis #13322, construído pela Reutter, em Outubro de 1962. Também já não existe porque foi destruído em 1964.



S – JJ 1061

É o Porsche do Museu do Design em Londres. O 911 do Butzi. Não se trata porém, neste caso, de nenhum protótipo. A história deste exemplar foi a seguinte: durante mais de duas décadas o automóvel esteve ao serviço da Porsche AG em Zuffenhausen. Foi o carro que o próprio Butzi utilizou pessoalmente por muito tempo. Por isso é que o mesmo aparece em várias fotografias tiradas nos jardins da “Porsche Villa” em "Feuerbacher Weg”. Mas não só. Naquele assento sentaram-se em serviço, outras figuras históricas da empresa: como Herbert Linge, Helmuth Bott, Hans Mezger, Wendelin Wiedeking ou até mesmo Dan Gourney. E claro, Mr. Ferry Porsche ”himself”.


Sucedeu que, a determinada altura o carro ficou como propriedade de Tobias Aichele (uma das maiores autoridades em 911, senão a maior de todas e autor do livro “Porsche Raritäten – Prototypen und autos, die nie in Serie gingen”) enquanto este esteve ligado à Administração da Porsche, AG e tornou-se na jóia da coroa da sua colecção de automóveis. O problema foi que Tobias Aichele empreendeu um projecto que, infelizmente lhe comprometeu a sua situação financeira - a reabilitação das corridas de Solitude – o “Projecto Mythos Solitude”. Quando Aichele meteu mãos à obra para concretização desse sonho, recebeu apoios incondicionais por parte de toda a gente ligada às corridas (e em especial à Porsche) mas teve que enfrentar um entrave e um revés inesperado: a resistência por parte da população de Estugarda, que não estava ainda sensibilizada para aquele propósito. E essas resistências acabaram por se traduzir em despesas, e de um dia para o outro, Aichele teve que se desfazer do seu Porsche. E quem lhe comprou o carro foi alguém que por sorte estava por perto e lhe prestava inclusivamente alguma assessoria burocrática. O carro esteve à venda por uma meia dúzia de anos, mas a casa mãe nunca se importou muito com ele. O seu actual (de então) proprietário contava histórias engraçadas, como por exemplo, a do seu vizinho que quando o via a conduzir o “Butzi” lhe dizia: “estou a ver que encontrou mais uma sucata!”, ou a de ter sido contactado por um quadro médio da Porsche que lhe tentou comprar o automóvel como se de um “mero” Porsche se tratasse. E é por isso que o carro não era vendido.
É pena esta desconsideração, porque é este Porsche que aparece nas fotografias históricas tiradas em 1993 no “Rene Staud Studios”, conhecidas como a “photo date” em que pai e filho (Ferry e Butzi) aparecem juntos aquando das celebrações dos “30 anos do 911”.
Por fatalismo, foi este 911 que representou o modelo na exposição de Londres. E quis o destino, que ele fosse o 911 a servir de elogio fúnebre a Ferry Porsche.



O currículo do automóvel:

1965 – Carro de imprensa, demonstração de Huschke von Hanstein em Hockenheim e no Circuito de Solitude.

1987 – Ensaio na Motor Classico.

1988 – 1992 – Emprestado ao Museu Porsche em Zuffenhausen.

1988 – 1.º lugar na sua Classe no “Concours d'Elegance” em Nuremberg.

1993 – “Photo date” nos estúdios de Rene Staud com Ferry Porsche e Butzi, para o catálogo de imprensa dos "30 jahre 911".

1993 – Vencedor à geral das celebrações dos "30 jahre 911" na Porsche Parade em Estugarda.

1998 – Museu de Design de Londres, exposição "Ferdinand Porsche - Design Dynasty: 1900 to 1998.

2000 – Participante na Porsche Parade em Baden Baden.

2001 – Participante no Concours d'Elegance em Schwetzingen.

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Antigo 26-03-2010, 2:30
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Antigo 26-03-2010, 3:32
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Seinquiu veri mâch!!!!
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Antigo 26-03-2010, 7:53
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Antigo 26-03-2010, 7:59
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bravo por mais esta curiosa e interessante reportagem.
Cumprimentos.
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Antigo 26-03-2010, 9:24
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Excelente Zico.

Obrigado mais uma vez.
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  #7  
Antigo 26-03-2010, 11:19
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Boa Zico... uma vez mais...
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  #8  
Antigo 26-03-2010, 12:16
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Obrigado por mais esta "oração". Não deixa de ser interessante o facto de ainda não ter encontrado comprador.

... e, já que falas de protótipos, há outro que merece referência, que mais não seja por ser supostamente o único sobrevivente. É o nº 7 (chassis 13327), apelidado de Barbarossa (S-SX 564)

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  #9  
Antigo 26-03-2010, 15:11
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Bonitos Porsches!
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  #10  
Antigo 26-03-2010, 17:16
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Obrigado Zico

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