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Antigo 06-08-2009, 21:58
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[quote=Diácono Luís]
Citação:
Tópico Aberto originalmente por "Diácono Luís":2hp3t427
Mas já que falamos em mitos, pergunto:

- Porque é que o Piquet que era Brasileiro e teve três títulos, sobreviveu a um acidente no mesmo local e por coincidência num 1º de Maio, nunca foi considerado um MITO?
Por acaso ainda ninguém respondeu a esta pergunta cá do Padreca: Tinha curiosidade em houvir as vossas explicações técnicas... do ponto de vista da psicolagia de massas...

![/quote:2hp3t427]

Sua Eminencia agora provocou para uma explicação mais técnica e como é dentro da minha área, cá vai ela:

Os mitos da sociedade têm duas origens:

1 - Transformação de outros mitos endógenos (dentro da nossa cultura) ou exógenos (fora da nossa cultura) originam outros mitos ou modificam os já existentes.

2 - Transformação de dados de outra natureza em mito.

Uma narrativa histórica transmitida oralmente numa sociedade sem escrita, vai gradualmente perdendo pormenores e mantendo outros (que até se podem aumentar).
Uma vez adoptada essa narrativa histórica por toda uma sociedade, essa narrativa transforma-se em mito, como por exemplo a história da “Padeira de Aljubarrota”.

Mito é e forma estereotipada que a comunidade conhece e que possui um determinado valor simbólico.

É possível que qualquer produção literária oral ou escrita individual, se possa tornar num mito, caso passe a ser conhecida oralmente por toda uma comunidade, sendo posteriormente aumentada ou diminuída. Todas as obras individuais são mitos em potência; tudo depende da adopção colectiva ou não. Uma das origens dos mitos é a transformação de mitos exógenos.

Perguntarão qual a razão para não replicarmos simplesmente os mitos tal e qual?
A razão é: por causa do contexto.
A estrutura do mito existe a partir de um determinado contexto cultural e esse mesmo contexto exige que se faça uma transformação do mito, adequando-o ao novo contexto cultural, próprio da nova comunidade em que está inserido.

Estudando a Mitologia e o Simbolismo no seio de uma sociedade, só devemos criar paralelismos com outras sociedades se os próprios membros da sociedade o fizerem. Por exemplo a transformação em mito de uma obra literária faz-se por via oral.

Os mitos não são apenas característicos das sociedades primitivas. Nós, membros das sociedades modernas também temos os nossos mitos. Alguns destes perduram desde tempos imemoriais.
Ex.: O mito da eterna juventude, que está bem patente no mito do sebastianismo, no regresso d´ “O Desejado”, D. Sebastião. Este está por sua vez ligado ao Messianismo de inspiração judaico-cristã. Este é o mito do eterno retorno, também presente na política, no regresso de figuras marcantes, o regresso de um salvador...

Muitos dos mitos dos nossos dias estão ligados à Comunicação Social, sobretudo no que diz respeito ao audiovisual. Há um campo que se presta muito a figuras mitológicas: o Cinema e as estrelas de Cinema. As estrelas são consideradas mitos porque a sua história foi narrada oralmente (através dos mass media audiovisuais), casos de James Dean e de Marilyn Monroe, por exemplo.

Nestes dois casos detectamos certas características mitológicas: a eterna juventude (o facto destes dois indivíduos terem morrido jovens é muito forte) e a oposição entre proximidade e afastamento (o facto da sua vida íntima ser conhecida atrai e causa emoção em oposição ao facto de tentarem manter um misto de mistério e privacidade), ingredientes simbólicos da criação de mitos.

Outro exemplo o mito da Lady Di que possui vários elementos simbólicos:
uma morte prematura que a levou na juventude;
história transmitida oralmente (através dos mass media audiovisuais);
a canção “Candle in the Wind” de Elton John ajuda a difundir o mito;
torna-se um mito quase planetário.

Há especialistas da matéria que falam em sete Mitos no Sec. XX (sete – o número da perfeição):
James Dean
Marilyn Monroe
Evita Péron
Elvis Presley
Che Guevara
Lady Diana
Jim Morrison

Todos estas figuras usufruíram de uma forte exposição mediática em vários orgãos de Comunicação Social. No entanto, não podemos dizer que são os mass media os produtores de mitos (os mitos são referências da nossa sociedade e de algum modo orientam-nos na nossa sociedade). Os mass media existem porque precisamos deles e fazem a difusão de casos deste tipo.
A aldeia global é um mito, porque corresponde a uma narrativa oral de que no passado todos os seres humanos estiveram juntos, se separaram e agora vivem um processo de reunificação da Humanidade, com a ajuda dos mass media, em especial dos electrónicos.

Um mito é um discurso, uma história, uma narrativa, ligada à cosmogénese (não ligado ao sentido literal, denotativo, mas sim ao simbólico, convencional, que se aceita num determinado contexto cultural).

O mito não se limita apenas às sociedades primitivas, nas nossas sociedades actuais e ditas civilizadas também os há.
A Comunicação Social tem um importante papel na construção dos mitos. Contudo, esse argumento pode ser contestado. No mundo existem muitos povos sem acesso aos mass media e, no entanto, também os possuem. Os mitos não existem por causa da Comunicação Social: os mitos fornecem-nos indicações sobre as sociedades às quais são inerentes, dos seus elementos simbólicos, fornecem ao indivíduo indicações espaço-temporais, permitindo a sua integração na sociedade.

O indígena de uma sociedade não tem consciência do contacto com os mitos durante o seu processo de integração na mesma, ao contrário do antropólogo, que entra em contacto com eles de forma consciente.

Nós contactamos com mitos compostos por elementos de natureza simbólica.
Um dos elementos dos símbolos é a arbitrariedade e segundo a qual tudo pode ter significado; nós seres humanos é que podemos não ter em nossa posse as chaves que permitam a descodificação desses problemas.
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...idiotice é esperar resultados diferentes para as mesmas acções...
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